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Título da Obra:  A Redenção de Cam
Artista:   BROCOS, Modesto
Index Iconográfico:  1546 - A Escravidão Negra; 1561- O Abolicionismo; 1 - Antigo Testamento; 14.40 - Ebriedade de Noé
Técnica:   Óleo sobre tela
Data:   1895
Período Histórico:   72 - O SÉCULO XIX NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL (A PARTIR DE 1822)
Dimensões:  199 x 166 cm
Local:   Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes
Texto:   O título da tela do pintor Modesto Brocos (1852-1936) é uma referência à maldição de Cam e de sua descendência, como relata o texto do Gênesis, IX 20:

"Noé começou a praticar a agricultura e plantou uma vinha. Bebeu vinho e se embriagou, ficando despido dentro da tenda. Cam, o antepassado de Canaã, viu a nudez do pai e foi contar aos dois irmãos que estavam fora. Mas Sem e Jafé tomaram o manto, puseram-no sobre os ombros e, caminhando de costas, cobriram a nudez do pai. Como estavam de costas, não viram a nudez do pai. Despertando da embriaguez, Noé ficou sabendo o que fizera o filho mais novo e disse: "Maldito seja Canaã! Que se torne o último dos escravos de seus irmãos".

Segundo Alfredo Bosi, os descendentes de Cam seriam os povos de pele escura de algumas regiões da África, como a Etiópia, a Arábia do Sul, a Núbia, a Tripolitânia e a Somália, além de algumas tribos que habitavam a Palestina antes dos hebreus. A menção a Canaã, presente no texto bíblico é uma referência aos cananeus, "filhos de Cam", que habitavam a região naquela época e que se tornaram escravos dos hebreus.

A maldição de Cam, no Brasil, foi usada no contexto colonial como justificativa para o tráfico de escravos africanos, servindo tanto ao novo pensamento mercantil como ao discurso salvacionista "que via na escravidão um meio de catequizar populações antes entregues ao feitichismo ou ao domínio do Islão. Mercadores e ideólogos religiosos do sitema conceberam o pecado de Cam e a sua punição como o evento fundador de uma situação imutável."

Modesto Brocos criou a representação de uma família pobre sentada à porta de casa e a figura de uma possível avó negra foi muito destacada pela crítica de arte da época. A mulher, de mãos erguidas ao céu, agradece pelo nascimento do neto branco, demonstrando acreditar que ele estará livre da memória do recente passado escravocrata.

Escreve Fantasio [Olavo Bilac] sobre o quadro: "Vede a aurora-criança, como sorri e fulgura, no colo da mulata - aurora filha do dilúvio, neta da noite. Cam está redimido! Está gorada a praga de Noé!"

O quadro de Modesto Brocos, pintado poucos anos após a abolição da escravidão no país, aborda de forma crítica as teorias raciais do final do século XIX sobre o gradual embranquecimento das gerações de uma mesma família, com a miscigenação.

Maria do Carmo Couto da Silva
21/02/2011

Bibliografia:
1895 - Fantasio. Fantasio na Exposição. II - A Redempção de Cham. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 5.set.,p.1.
1998 - A. Bosi, Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, pp.257-258.


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