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Título da Obra:  Anunciação com Santo Emídio
Artista:   CRIVELLI, Carlo
Index Iconográfico:  606A - Anunciação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo;
606A1 - Anunciação; 806 - Imagens e Ciclos Biográficos de
santos; 806Emid - Santo Emídio
Técnica:   Têmpera e óleo s/ madeira transferido sobre tela
Data:   1486
Período Histórico:   30 - SÉCULO XV
Dimensões:  207 x 146,7 cm
Local:   Londres, National Gallery
Texto:   Registro inventarial: inv. NG 739

Assinada e datada: "Opus Caroli Crivelli Veneti 1486".
Embaixo, a inscrição: "Libertas ecclesiastica"

A composição pintada a têmpera e a óleo representa uma cena
citadina, descentrada e verticalmente partida em duas
seções. Na seção direita, vê-se uma magnífica arquitetura em
dois andares, típica residência suntuosa do século XV,
presente em muitas pinturas do período.

No andar de baixo, a Virgem, ajoelhada em frente a um
púlpito com um livro de horas, de braços postos, recebe a
colomba do Espírito Santo que, percorrendo um raio de luz
originado em um extravagante céu noturno, penetrou em seu
aposento por um orifício na frisa, evidente metáfora da
fecundação mística (Lucas 1, 26-38).

No andar de cima, há uma loggia com um forro decorado
por cassettoni de diversos padrões e cores, adornada
por relevos de putti em pórfiro à antiga, um tapete
persa, um pavão, símbolo da ressurreição, e dois outros
pássaros, um deles em uma gaiola, além de vasos ornamentais.

À esquerda, exibem-se arquiteturas com algumas personagens,
ladeando uma estreita rua desembocando em um arco e sugada
por uma vertiginosa perspectiva. Nela encontram-se uma
criança e alguns franciscanos no topo de uma escada e, em
animado colóquio com o anjo Gabriel da Anunciação, S.
Emídio, mártir do século IV (supostamente martirizado em
309), bispo e padroeiro de Ascoli Piceno, nas Marche, cidade
cujo modelo ele traz nas mãos.

Ambos estão ajoelhados diante da grade da janela, ela também
em ostensiva perspectiva, a contemplar a Virgem anunciada em
seu tálamo. O vivido colóquio entre o anjo e o santo bem
corresponde à sua função de protetor da cidade contra a
peste, os terremotos e as guerras.

A iconografia é conhecida. Trata-se da celebração do decreto
pontifício "Libertas Ecclesiastica", pelo qual a cidade de
Ascoli Piceno, então pertencente ao Estado Pontifício, obtém
o privilégio, requerido em 1481, de usufruir de maior grau
de autonomia política. A notícia de que tal requisição fora
deferida por Sixto IV chegou à cidade no dia 25 de março de
1482, dia da Festa da Anunciação, de onde a fusão na pintura
das duas comemorações, a religiosa e a cívica. Assim, à
presença de S. Emigídio em baixo, corresponderia, segundo
Lightbown, a do notário de Ascoli Piceno, Antonio Benincasa,
recebendo sobre a arcada a carta de outorga da relativa
liberdade comunal.

A destinação original da obra era a igreja franciscana da
Santissima Annunziata em Ascoli Piceno, de onde a presença
acima mencionada de franciscanos, homenagem igualmente ao
franciscano Giovanni della Rovere, papa Sixto IV. Outra obra
de mesmo tema, encomendada em 1484 a Pietro Alemanno, um
seguidor de Crivelli, destinava-se a decorar o Palazzo
Comunale da cidade.

A obra traz, embaixo, da esquerda para a direita, as armas
de Prospero Caffarelli, bispo de Ascoli Piceno entre 1464 e
1500, de Giovanni Batista Cybo, papa Inocêncio VIII de 1484
a 1492, e da cidade de Ascoli Piceno. Ela valeu a Carlo
Crivelli (1430-1493/1495) o título de «Cavaliere» a ele
outorgado pelo príncipe de Cápua, Senhor de Ascoli Piceno.

Com as supressões napoleônicas, a Anunciação de Crivelli foi
enviada a Milão e alocada na Pinacoteca da Accademia di
Brera. Nela não vendo maior interesse, a instituição trocou-
a no mercado antiquário por um quadro então atribuído a
Caravaggio, mas hoje considerado apenas uma derivação.
Adquirida por Lord Taunton, a obra-prima de Crivelli foi por
ele ofertada em 1864 à National Gallery de Londres.

Esta incompreensão do Museu milanês não deve surpreender
pois Carlo Crivelli, considerado hoje um dos mais
fascinantes pintores da Itália adriática no século XV,
permaneceria até a segunda metade do século XIX um completo
desconhecido, não sendo sequer mencionado na literatura de
seu século, e nem mesmo nas "Vidas" de Giorgio Vasari.

Luiz Marques
10/02/2012


Bibliografia:
1995 - C. Baker, T. Henry, The National Gallery. Complete
Illustrated Catalogue. Londres, p. 162
2004 - R. Lightbown, Carlo Crivelli. Yale University Press,
pp. 337-344
2011 - G. Horváth, "Rephrased, Relocated, Repainted: visual
anachronism as a narrative device". Image and Narrative, 12,
4, pp. 4-18
http://www.imageandnarrative.be/index.php/imagenarrative/art
icle/viewFile/181/145

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